Era o vigésimo sexto dia e nono mês do presente ano.
Exatamente dez dias antes das eleições. Rumores de ódio pairavam de um lado e do outro e o domínio do mal, ainda que sem resultado eleitoral algum, já se fazia real.
Era a presidência que eles disputavam.
O atual governo, apesar de uma bomba nacional de corrupção ter estrondado na varanda de sua casa e arrasado quase toda a economia do país, estava presente numa pessoa de bem, Fernando Haddad, todavia, cambaleando entre a lama, que por vezes sujava seus pés devido à má fama dos outros.
Os candidatos que para o povo eram fichas limpas pareciam desarmados demais para o cargo - Marina, Boulos, Daciolo, Amoedo, Meirelles, (posso pular o Álvaro Dias?)e Ciro, que ao meu ver, destes, talvez, parecesse o mais coerente e preparado pelo seu histórico político. Por vezes impulsivo na fala e nos modos, sem muita discrição.
Em extrema direita, o capitão.
Surgiu como o salvador da pátria, com discurso que todo bom brasileiro aplaude: Deus, família e uma sementinha de esperança para romper com toda a sujeira na qual o congresso estava submerso.Boa parte parece confiar nele. Me parece, que passou um tempo estudando o país com um dos maiores empresários do Brasil- Edir Macedo. Sabe exatamente o que a população brasileira é religiosa e atacou tudo o que a igreja ataca e amou o que ela ama, principalmente a justiça. Homem honesto por dizer a verdade sem se importar aonde vai chegar nem quem vai desnudar. Tudo o que queríamos: um corajoso que rompa com todo esse sistema de corrupção. Escolheu a estratégia certa para o desesperado - Ele- Bolsonaro, o mito. Quem não confiaria num capitão? Era este o contexto que nós dois estávamos. E apesar do meu coração pesado pelo que eu enxergava para além do “Deus acima de tudo”.
Os dias estavam sombrios e escureceu ainda um tanto quando Bolsonaro dera as mãos à noiva, não à sua, mas a que deveria estar com os potes de azeites cheios.
Como ela conseguiu, eu não imagino, mas deu.
E quando a adúltera foi trazida por ele, flagrada no ato do adultério, ao contrário do que o noivo faria, ela foi e lhe apedrejou. Apedrejou os negros, apedrejou os gays e apedrejou todos os que discordavam do falso noivo...
Exausta de coração, mas de mãos sempre leve, carregando meu filho de oito anos, me dirigi, como todos os dias, à caminho do metrô, seguindo para o trabalho e para me aquietar naqueles 36 minutos de viagem da estação Uruguai, ao terminal Botafogo.
Finalmente, mesmo sob a atmosfera deste contexto hostil e de crise moral da igreja, nos aproximamos dos assentos cinzas e nos sentamos.
Ora aflita, ora culpada, ora com raiva, ora confusa... abaixei minha cabeça ao lado da do pequeno, como temos feito, não com a frequência que gostaríamos (graças ao candy crush) e disse: vamos fazer nosso momentinho com Deus? -Vamos. Mas quando chegar na Presidente Vargas eu quero jogar! Eu não esperava nada mais espiritual que isso. Só topei. Abro a mochila, tiro o caderninho, a Bíblia é um livreto de estrelinhas, que ele ganha quando capricha no desenho. Enquanto ele procurava na Bíblia a história que paramos, eu escrevo a data e o título da história. Assim escrevia enquanto ele ditava: A parábola dos trabalhadores da vinha ( Mt. 20.1-16)
Meus olhos marejados, passeavam pelo texto, por cima daquelas linhas e a minha mente voltava para a era de Cristo.
Ele falava ali do REINO DE DEUS. Afirmando que era como um proprietário que tinha uma vinha e saiu para contratar trabalhadores. Eu usei a moeda real (R$) Porque ficava mais fácil pro guri entender, então troquei um denário, por R$ 100,00. Então, ele saiu cedo e contratou alguns trabalhadores, negociando a diária do trabalho no valor de R$100,00. As 9:00h saiu de novo (a esta altura eu já estava quase chorando porque conhecia o texto e sabia como ele iria me trazer luz) e contratou mais uns, 12:00h outro, às 15:00h outro e às 17:00h encontrou uns desocupados e perguntou por que estavam desocupados, eles responderam que NINGUÉM OS HAVIAM CONTRATADO. Assim, o proprietário foi e os convocou também.
Ao fim da tarde, o patrão chama todos e diz ao seu servo: agora vai e paga o salário deles COMEÇANDO DO ÚLTIMO ATÉ O PRIMEIRO. E fez assim. Mas os primeiros quando viram o pagamento dos últimos pensaram que receberiam mais, já que seria justo porque trabalharam o dia todo no sol. A surpresa foi que ganharam o mesmo valor. Ao ouvir a queixa dos primeiros contratados, ele disse: Não vos dei o pagamento justo, como havíamos combinado?!? Vocês estão com ciúmes porque fui generoso?
Um contexto canceroso temos experimentado com uma intensidade nunca vista, daí penso o quanto a generosidade deve exceder a justiça. Até porque se Deus fosse justo, eu não estaria escrevendo agora é nem você lendo. Deus não é justo! Deus é puro amor!
Se de um lado a irreverência de um povo que não tem referência do que é santo, do outro os que são santos, advogando a causa de Deus sem necessidade porque a Sua maior causa são os do lado de lá. Sua maior causa é a vida, Ele veio para os de lá, né? Os sem contrato. Para as putas, as vadias e os viados aos quais estamos perseguindo. Como se persegue os que deveriam ser alvos do amor por serem minorias?!?!
Foi naquele ar descansado, como de ovelha na graminha verde sob a macieira, que entreguei a caneta pro pirralho porque fazemos também uma listinha de oração e digo: agora é a sua vez.
Ele então escreve sem cola, encantado pelo texto e ansioso pela estrelinha, o título: Oração especial e, pasmem, eu precisando ainda de oração, na expectativa dele escrever ao lado do número 1, Mamãe, ele vai e copia: Mike.
O primeiro da lista dele é o cãozinho de estimação, único verdadeiramente puro.
E como quem quer dizer que a história valeu, também descreve seu desejo de aprender a ser generoso.
E quase antes do amém: “Estação carioca, portas se abrindo”.
“Mamãe, você extrapolou o tempo, me dá o celular!”
Eu também cheguei em Botafogo querendo aprender a ser generosa, e qualquer discurso diferente disso me escandaliza. Só porque Ele não quer que eu seja assim pelo fato dele não ser assim.
Rossana F. Refosco
"Eu tentarei tocar o mundo como Você tocou a minha vida. Eu quero ser Tuas mãos, eu quero ser Teus pés. Eu irei aonde Você me mandar". A.A.
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