29 de dezembro de 2016

Geni e o vendedor ambulante


“As guerras só podem ser impedidas se as pessoas estiverem prontas a ser perseguidas por não participarem delas. É o único meio”. Leon Tolstoi
O último texto que escrevi falava sobre os mortos-vivos, na verdade, os vivos-mortos.
É possível que no mesmo momento em que eu estava debruçada sobre lápis e caderno, registrando minhas anotações, aquele “senhorzinho” estava lá, na estação Pedro II, ao chão da capital paulistana sendo espancado.
Quem lembraria do senhor Luiz Carlos Ruas?
Tinha seus 54 anos e desempenhava um papel insignificante:Vendedor ambulante. As pessoas esquecem que não era isso que ele era, era isso que ele fazia. Ele era muito mais.
A morte de Luiz pra mim é bem mais do que um retrato de crueldade.
Na paisagem panorâmica brasileira, há uma imagem ensanguentada.
O texto que escrevi sobre “os mortos vivos e o natal” pareceu profético, retrata a escassez do bem.
Sinto-me como nos tempos de Ezequiel, ao relento; sobre ou sob; diante ou submersa (não sei ao certo) no vale de ossos secos.
Pessoas mortas e desalmadas é o que encontramos por aí.
Estamos num tempo em que um “bom dia” causa até desconfiança.
Por mais que você possibilite uma relação de confiança e acredite na esperança de encontrar alguém do bem, ao fim, descobre que mais uma vez você errou.
Não diria exatamente o mal, mas o bem pervertido parece prevalecer.
Mas esta figura do quadro da noite do episódio no metrô de São Paulo, está longe de ser de ódio e de assassinato, nem de perto parece a morte da qual falara anteriormente, pelo menos a morte do vendedor;
A morte, o ódio e o assassinato, para minha interpretação, está no calabouço da imagem, porque embora o espancamento, o maltrato, a injustiça e a maldade também estejam pintadas, elas não são o foco de meus olhos.
Se alguém se expôs para defender um transexual, classe marginal e vítima do pior tipo de preconceito na nossa sociedade, é porque o bem não morreu.
Se alguém viu o mal e se opôs, o bem prevaleceu.
Alguém entendeu que era mais importante ser humano do que ser homo, heterossexual ou o que quiser ser além.
O natal estava ali, na escuridão daquela estação, mais do que em muitas mesas fartas de famílias reunidas, porque alguém resistiu à injustiça e se opôs à maldade.
Seu Luiz significa esperança; um grão de trigo que morreu para florescer, pelo menos em mim e, espero que também naquele travesti, que fora a última pessoa que ouviu o pedido do seu Luiz em sua defesa: “Não faz isso com o rapaz!”, em outras palavras: "Não joga pedra na Geni".
Se o mal foi imenso naquele dia, o bem maior ainda, porque o único meio de acabar com a guerra é se opondo a ela.

Pelo assassinato do Senhor Luiz Carlos Ruas, 54 anos; por defender um transexual na noite de 25 de dezembro de 2016; na estação Pedro II; São Paulo; Brasil.

Imagem:Arranjo em preto e conza nº 1 (retrato da mãe do artista);James McNeill Whistler; de 1871
Rossana F. Refosco

26 de dezembro de 2016

O primeiro natal

O primeiro natal não parece, nem de longe, com o que aparece nas fotos, reuniões familiares e cartões natalinos.
Primeiro, a notícia que o anjo deu a Maria - uma adolescente solteira - não poderia ter sido "pior".
Era lei que a mulher que engravidasse solteira, fosse considerada adúltera com o risco de ser apedrejada.
Enquanto Isabel exibia o milagre em seu ventre, Maria e José escondiam.
Como se não bastasse a notícia e desconfiança de José quanto a fidelidade de Maria, ainda tinham que sair do próprio aconchego e fugir do conflito de Roma, do massacre do psicopata Herodes.
Não houve paz no primeiro natal.
Segundo alguns repórteres, a rápida visita da rainha Elizabeth II aos EUA, custou aproximadamente vinte milhões de dólares. Seus pertences pesaram seis mil e oitocentos quilos de bagagem, quarenta quartilhos de plasma e assentos de pelica branca para vasos sanitários. Trouxe camareiros, cabeleireira e inúmeros atendentes.
Um humilde contraste, a visita de Deus à terra aconteceu numa estrebaria; sem presentes e sem lugar pro recém nascido deitar além de um cocho. O acontecimento que dividiu a história, talvez tenha tido mais testemunhas animais que humanas. Deus, em Cristo, deitou-se a ser dessecado pelos céticos e correu o risco de ser vítima analítica de incrédulos. Ele se expôs porque não tinha do que temer. Sua glória era fazer-se igual. Ele esvaziou-se de si mesmo e veio ao mundo também como um ovo fecundado.

24 de Dezembro de 2015
Inspirado em : YANCEY, Phillip. O Jesus que nunca conheci.
Rossana F. Refosco

24 de dezembro de 2016

Os mortos vivos e o natal

Lá fora está cheio de mortos e aqui dentro há ainda alguns; alguns que ainda não decidiram o que são.
Mortos vivos: é o que eles são.
Egoístas, Maus, traidores, mentirosos.
Parecem gente como a gente, mas não o são. Visam apenas a si mesmos e matam seus semelhantes por causa de seus objetos.
Alguns não são maus, mas são indiferentes, o que é quase o mesmo.
A cidade está repleta dessa gente, mas gente que não é gente; Gente que não é humana.
Não haverá natal enquanto não optarmos pela justiça e honestidade; enquanto nos calarmos diante da injustiça ou omitirmos a verdade.
Não haverá natal enquanto escolhermos as mentiras à verdade.
Não haverá natal enquanto os maridos traírem suas mulheres.
Não haverá natal enquanto não entendermos que a lei é desnecessária quando há amor.
Não haverá natal, enquanto nossa esperança estiver apenas nas pessoas, nas coisas ou projetos políticos.
Não haverá natal enquanto eu julgar alguém pela aparência ou pelo que não possui ou possui.
Não haverá natal se a fome do outro não molhar meu rosto, se a dor do outro não me doer.
Não haverá natal para os vivos que estão mortos.
Não haverá natal enquanto estiver andando sem direção.
Não haverá natal enquanto a minha frustração me fizer machucar mais pessoas, enquanto eu não quebrar o ciclo da maldade e do ódio com o bem.
Não haverá natal se eu preferir ficar assentado no meu lugar de direito enquanto alguém mais velho está em pé.
Não haverá natal enquanto eu esperar que os outros sejam bons antes de mim.
Não haverá natal enquanto os sobreviventes não estiverem juntos, lutando juntos ou até morrendo, mas JUNTOS.
Os mortos estão lá, estão cá, estão por toda parte.
Os mortos se alimentam dos vivos.
Os mortos se alimentam das lágrimas dos que sobreviveram, porque causam revolta e se cada um dos vivos se revoltam, caminharão para a morte.
Não haverá natal enquanto eu não considerar a minha vida e todas as vidas preciosas.
Não haverá natal enquanto o amor estiver escasso.
Os mortos estão por toda parte, estão ao nosso lado; no trabalho, em nossa casa, na igreja, nos shoppings, nos metrôs, ônibus. Eles estão perto, por vezes disfarçados de vivos, mas vivendo como zumbis, para destruir.
Nós somos sobreviventes. Sobreviventes amam pessoas e não coisas.
Para os sobreviventes há natal todos os dias.
Para os sobreviventes, não importa o tamanho do risco que se corre, desde que não morramos vivos;
Eles se alimentam de ódio, a maldade e criam contenda entre irmãos. Os sobreviventes amam e se protegem, acima de tudo. Os sobreviventes não se iludem com o dinheiro ou com aplausos. Para os sobreviventes, há ceia diária, há natal cada vez que fazemos o bem sem nos cansarmos.
Os sobreviventes sabem que precisam "morrer" todos os dias para que haja a esperança do NATAL.
E o natal dos sobreviventes é um convite aos mortos a abandonarem a mentira, a maldade, a traição, omissão, a indiferença e o amor fingido...
Porque sempre é possível MUDAR.
É um convite para que se arrependam porque APENAS os arrependidos sobreviverão, mesmo que seus corpos se acabem, viverão para sempre, porque o amor é eterno, e somos sobreviventes,porque ele ainda nos resta, então para nós é natal, porque Cristo está em nós. Cristo nasce em nós cada vez que escolhemos amar e perdoar.
Aos vivos: continuem sobrevivendo juntos, se protegendo.
Aos mortos: sejam como nós.
À todos, um natal que seja real.
Rossana F. Refosco

5 de dezembro de 2016

Da criação

Não tinha forma, nem vida
Descolorida e vazia
Uma voz doce, querida
Com muito amor dizia:

"Haja Luz!" E o sol brilhou
E o escuro acabou
O céu e a água separou
Em cima e embaixo colocou

Sinto o toque de amor
Em cada parte deste mundo
Pois com beleza, o criador
Pintou seu cuidado profundo

"Produza a vegetação
E plantas de todos os tipos!"
Toda semente, todo grão
À vida deu encantos ricos

São tantos gostos e texturas
E cores diversificadas
Doces, azedos. Quanta ternura!
Como as pessoas são amadas!

O criador deu importância
E pôs as coisas em seu lugar
Cada detalhe há segurança
Que nEle posso confiar

E sem falar nos grandes astros
Refletem luzes amarelas
E todos seguem um compasso
O sol, a lua e as estrelas

As águas doces e salgadas
Sustentam todo o universo
A perfeição bem estampada
Descrevo aqui na frente e verso

Nem mencionei os animais
Milhões de raças e espécies
Grandes, pequenos - tanto faz
Pode-se dividir em séries

Quem acredita em Deus
Tem certeza de seu cuidado
Tudo foi feito para os seus
Por Ele o mundo é amado

A natureza é uma prova:
Deus é muito inteligente
O seu cuidado se renova
E sua força está na gente.



Rossana F. Refosco

29 de novembro de 2016

Um quarteto

Melhor me tornara o tempo
Cada sonho desfeito
Cada plano mal feito
Cada conto atento

Tiveram-me de mentir o momento
De amar por engano
De causar tanto dano
Me aspirar desalento

Espremendo-me ali no casulo
Abortando com a força
Meu desejo de moça
Meramente absurdo

Na umidade da noite sorrio
Sem perder o alento
Me deixar ao relento
E parecer tão sombrio


Imagem: Le Rêve; Pablo Picasso; 1932.

Rossana F. Refosco

21 de novembro de 2016

Rio

Rio da vida
Rio na vida
Rio com a vida
Rio com amiga
Rio sozinha
Faço-te rir
O riso é meu forte.
Riso contínuo
Riso contigo
Riso da morte ou má sorte
Riso mais sério é poesia
Cama onde deito-me nua
Gozo-me ainda sua
Gozo-te bem porque Rio



Rossana F. Refosco



Imagem: Rob Gonsalves;Toronto,1959.

28 de outubro de 2016

Mais altos

As coisas ficam diferentes
Tudo muda de lugar
O que era bom
Pode não mais ser
Ou continuar;
A história
Pode ter outro final
Os personagens
Podem nem ser os mesmos
Pode faltar o pão
E não chegar a luz
Pode não ter o que se quer
E o dinheiro acabar

Mas eu estou bem certo
que Ele é poderoso
Para fazer além do que eu sonhar
Mesmo que não se cumpram
Nenhum dos meus projetos
Contigo ao meu lado
Tudo vai dar certo

Assim como os céus
são mais altos que a terra
Assim seus pensamentos
são mais altos que os meus
Meus olhos não enxergam
Nem o próximo segundo
Mas os Teus(...)

03 de Novembro de 2008, editada em 27/10/2016

Rossana F. Refosco

Num raio de sol

No sol, na manhã Areia do mar Me assentava esperando você Dourado o chão Toda luz em mim Entre o som das ondas A sua voz E no fechar dos o...