Da seção de livros poéticos contidos na bíblia, tenho bastante estima por Jó.
Não há evidências de que sua história seja real, e sobre o autor, alguns eruditos sugerem Moisés, outros descrevem o sábio Salomão, mas a sua autoria é incerta.
Sobre sua veracidade, há suspeitas de tratar-se de uma trama.
Embora considerado um enredo fictício, contém nas linhas e entrelinhas desta biografia, verdades divinas e também humanas, que para mim evocam sobremaneira um pensamento: o de não subestimar a relação pessoal e íntima de um indivíduo com Deus, pondo em cheque a admirada e maldita meritocracia, muito querida por alguns.
Em Gênesis, observo a ação de Deus, como de alguém que preserva aqueles que são justos.
Em detrimento de toda a maldade que se instalou no mundo, desde a queda do homem, surgiram pessoas nas quais motivaram o criador a acreditar na possibilidade de restauração de toda a humanidade,por isso a destruição que sobreveio nos tempos antigos, não atingiu a família de Noé.
Os relatos mostram o cuidado de Deus sobre a geração de Abrão, Ló, Isaque, Jacó, José...
Enfim, se tivesse de usar um termo para definir tais ações de Deus no primeiro livro do pentateuco, seria: 'preservação'. Mas Ele tem seus propósitos eternos, que muitas vezes não compreendemos.
Nos primeiros capítulos do livro de Jó, as cortinas se abrem com a exposição clara e objetiva, que identifica a prosperidade e integridade do protagonista.
Seguidamente, o próprio Deus exibe orgulhosamente o seu filho à Satanás, descrevendo-o como "íntegro, reto, honesto, leal à sua palavra, totalmente consagrado a Deus e que odeia a maldade"(1.1-8).
Diante da tragédia que resultou em perdas, tanto de bens, quanto de todos os seus filhos, Jó permanece triste, porém, sem pecado, afirma o narrador; sua fé e confiança continuam voltadas para o Criador, declarando-se submisso à soberania divina: "O Senhor deu, o Senhor tomou, bendito seja o nome do Senhor" e, ainda: "Nú saí do ventre e nú retornarei, o nome de Deus seja louvado". (1.21-22).
No episódio que sucede, Deus, para garantir ao inimigo que a fé de Jó era indestrutível, permite que Satanás toque em sua saúde, agora era a vez de mexer em sua homeostasia.
Diante da enfermidade, Jó prefere ficar em silêncio, negando a proposta (para ele, insana) da esposa, de amaldiçoar a Deus.
O narrador mais uma vez entra em cena apenas com uma frase evocada do meio do redemoinho: "Apesar de tudo, Jó não pecou". (2.10)
Finalmente recebe a visita de alguns amigos que acompanham seu sofrimento "de perto" e lamentam durante 7 dias e 7 noites sem dizer sequer uma palavra, tamanha era a dor de Jó.
Passados estes dias, Jó sente necessidade de quebrar o silêncio, expressando o seu desejo pela morte, com o intuito de aliviar um pouco sua tortura.
Após o desabafo de Jó, um de seus amigos, Elifaz, repreende Jó, apresentando-lhe acusações à sua pessoa.
Ele discursa sobre as verdades de Deus como se Jó não O conhecesse de fato e de experiência.
Para ele, Jó certamente houvera pecado para que lhe sobreviesse tamanho castigo.
Jó não precisava de conselhos, precisava sentir-se compreendido, sentir-se consolado, mas ao contrário, ficou desapontado, continuou sozinho e comparou os seus amigos a "um rio que seca no verão"(6.14-23).
Todavia, de uma coisa Jó tinha convicção: sua integridade diante de Deus; e, sem máscara, confessava a sua desesperança pelo mal que lhe ocorrera.
É a vez do outro amigo Bildade, ele também discursa sobre os atributos de Deus e Sua capacidade, julgando Jó de haver pecado e afirmando que seus filhos também haviam pecado, por isso Deus os castigara; Ele propõe que Jó urgentemente se arrependa, tentando lançar sobre ele o peso da culpa.
A defesa de Jó (cap 9) não é uma exposição de alguém que apenas conhece a Deus, mas que de fato tem uma proximidade com Ele.
Jó mais uma vez declara a sua inocência (9.21), mesmo sabendo que fora-lhe dado pelo amigo o veredito:'culpado'.
O que Jó desejava era paz, um mínimo de alívio para a sua dor e, apenas na morte estava sua esperança; ele expressa honestamente todo sofrimento de sua alma, ainda que sem consolo algum.
-Jó, você pensa que não temos a resposta?
Pensa que sua zombaria nos fará calar?
Você diz que é inocente, mas eu gostaria que Deus mesmo lhe desse a resposta; assim você entenderia que Ele o está castigando menos do que o que você merece. Arrependa-se, volte o seu coração para Deus. Abandone o pecado de suas mãos e Ele o curará". (11.3-20)
São estas as palavras do seu terceiro amigo, Zofar.
Que discurso tenho a oferecer para um coração em sofrimento?
Quando um coração dói, não precisa de discursos sobre Deus, precisa de afeto; não precisa de religião, porque a única palavra que se encaixa com dor é amor e amor é o que o amor faz.
Jó não tinha necessidade de juízes ou donos da verdade, muito menos de quem apresentasse o Deus que ele já conhecia.
Não precisava de um ultimato, mas de empatia,de uma escuta compreensiva, porque se estamos em uma caverna, o que precisamos é de alguém que entre lá, mas entre de verdade, alguém que tenha medo e chore conosco, que veja, aliás, sinta a escuridão e nos ajude a sair de lá.
Jogar uma corda às vezes não basta, é preciso descer, ir até a caverna para tirar quem quer que seja de lá.
Ref.: Bíblia -"A mensagem" -versão de Eugene Peterson.
Imagem: François ler en César; Francesco Primaticcio; séc XVI;
Rossana F. Refosco
"Eu tentarei tocar o mundo como Você tocou a minha vida. Eu quero ser Tuas mãos, eu quero ser Teus pés. Eu irei aonde Você me mandar". A.A.
18 de janeiro de 2017
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