Fecho os olhos tentando me lembrar quando descobri minha missão, mas não lembro. Como escrevo desde uns 11 anos, num daqueles meus diários, certa vez encontrei a resposta: “Quando eu for grande, quero ser psicóloga”. Não sei de onde tirei isso. Certamente ainda não sabia exatamente o que era aquilo, mas provavelmente devo ter lido sobre a atuação profissional e me identificado com o papel. Encontrei este diário anos depois de entrar na faculdade e fiquei surpresa.
Para muitos, aquela solenidade em dois mil e oito, o ano da nossa formatura, era uma mera formalidade, sem muita utilidade, era o cumprimento de um protocolo. E embora eu sempre acreditara que a palavra devia ser, quando sim, sim e quando não, não; talvez aquele dia tenha sido uma das poucas vezes que jurei de verdade. De pé, com a mão direita levantada, jurei, e não apenas jurei que serviria ao meu país, seguindo todo o rigor ético à serviço da humanidade, eu fechei os olhos e me coloquei a disposição do bem comum e da felicidade dos meus semelhantes. Chorei porque queria tocar com as minhas mãos a alma das pessoas e tentar aliviar o sofrimento delas, amenizando cada dor, sendo fiel ao meu conhecimento e subtrair os sentimentos autodestrutivos que tiram a alegria das pessoas. Eu tinha certeza que a partir daquele momento eu estava entrando em guerra contra as angustias e pesadelos que arrancavam o bem estar dos indivíduos.
Não é fácil.
Não é simples se colocar como um escudo, como um espelho ou como um aspirador das coisas que afetam negativamente os humanos. Não é fácil olhar para as suas histórias e não encontrar culpados.
Não é fácil não se envolver com a dor deles. Não é fácil por vezes ter de segurar o choro; ter de ser forte diante de um sofrimento. Não é fácil saber ouvir de verdade e poder segurar a mão de alguém que já perdeu a esperança; Não é fácil escutar alguém descrever algo “irreal”, mas que machuca de verdade. Não é fácil saber que é de um simples abraço que aquele ser humano precisa e que embora você dê, as pessoas que mais deveriam, jamais enxergarão. Não é fácil lutar com todas as suas forças contra a depressão e fracassar. Mas o pior de tudo, é não tentar, não poder ajudar, não poder reerguer, não poder levantar sozinho aquele alguém que já não está em condições de ficar de pé...
Por isso o amor é sofredor.
E se eu pudesse voltar no tempo, se voltasse dez anos, escolheria ser o que sou. Faria tudo outra vez. Porque penso que quando a gente trabalha com amor e para o amor, é assim, sempre vai valer a pena.
Dentre as inúmeras atuações da Psicologia, experimentei algumas. E em toda esta prática, posso me assegurar de que a empatia e a aceitação incondicional podem até não resultar exatamente na cura, porque não depende só do profissional, mas é o caminho para se chegar a ela.
No consultório, os clientes, previamente marcados, chegam até nós, cientes de que não conseguem mais lutar sozinhos e se surpreendem ao encontrar alguém que finalmente consegue compreender suas dores, isentos de julgamentos e com neutralidade podem tratá-los.
Mal sabem, que depois que eles levantam da poltrona e saem aliviados, nós ficamos lá, no mesmo local, segurando a prancheta, pensando e repensando nas histórias contadas desde a primeira sessão, nos relatos significativos, e, relendo cada uma delas, escrevemos os avanços e declínios, analisando cada palavra dita e não dita, para tentar estratégica e minuciosamente elaborar uma forma melhor para atender as demandas, para tentar ser suporte, na esperança de vê-lo livre de suas dores.
Em saúde mental descobri que optei pela abordagem mais humana do mundo. Descobri que eu posso sim, como Rogers mostrou, ser quem sou. Aprendi que a autenticidade faz parte do processo. Que eu posso usar além da linguagem verbal; e que muitas vezes não basta ouvir e ser compreendido, aprendi que um abraço pode ser a intervenção perfeita para o acolhimento.
Ouvi, uma vez, numa roda de pacientes com esquizofrenia, a senhora M. A. S., de uns 60 anos, falar: “Doutora, eu gosto da senhora porque a senhora abraça de verdade”. Poderia relatar os casos pesados, as evoluções dos pacientes deprimidos, as urgências, junto ao SAMU, as crises e surtos dos pacientes, as vezes que tentando intervir fui agredida fisicamente, as visitas domiciliares, dentre outras intervenções, mas prefiro expor apenas a importância da autenticidade, do abraço. Acsa de Queiroz, sabe bem disso.
A Psicologia Hospitalar também me encantou! Conheci grandes profissionais Barbara Vallim Késia Furtado, com quem aprendi muito.
Infelizmente nunca poderei relatar tamanha experiência, mas ao menos tentarei relatar algumas verdades de nossa rotina.
Entrava pela porta dos fundos, os que me cumprimentavam na chegada, mal sabiam que em todo o percurso da minha casa até o hospital, eu pensava neles, não nos leitos de número 5, 11, 3, 7... Pensava no seu Manuel, seu João, Dona Maria, Cida...Desde o ônibus eu imaginava se eles ainda estariam lá, torcendo para que tivessem tido uma evolução e ido pra casa. Quase todos os meus plantões eram na Unidade de Terapia Intensiva, por causa disso, as variáveis intervenientes eram bem comuns. Passávamos o dia inteiro em pé, mas era gratificante.
Diferente da Psicologia clínica, não era o paciente que procurava o terapeuta, era o contrário e as intervenções eram breves.
Não era fácil, porque o intervalo de um plantão para o outro, era de dois dias, e muitas vezes eles já não estavam mais lá... Uns, felizmente recebiam alta médica e iam pra algum quarto do hospital, e eu fazia questão de visitá-los e mostrá-los minha alegria pelo avanço, outros, infelizmente não poucos, estavam na lista dos que iam embora pra sempre.
Desde a entrada pela porta dos fundos, eu respirava, e, seguindo a rotina, guardava meus pertences, vestia o jaleco, cumprimentava os colegas, registrava a minha chegada e colocava a caneta, o carimbo e o caderninho nos bolsos para ansiosamente subir até o quinto andar, onde ficava a UTI. Seguia às pressas, com vontade de saber como eles estavam. Deparava-me com aquela porta, e a placa cujo anúncio era de restrição e entrada exclusiva dos profissionais. O frio, o silêncio de vozes e o barulho dos aparelhos estereotipavam o lugar, e assim, eu respirava e orava. Orava porque eu precisava de algo transcendente. Há lugares que se você não acredita em Deus, não existe esperança e tudo vira sem sentido, um caos de desesperança, mas se você acredita, sabe que os números podem mudar e que a ciência pode não ser tão precisa assim.
Enfim, seguia de uma porta a outra observando leito por leito, vendo quais pacientes estavam acordados,quais eram os inconscientes, os quietos,os traqueostomizados,os entubados, os agitados, observava a expressão dos que estavam dormindo, os mais graves, os desacompanhados, os que estavam tristes e os que sorriam e acenavam pra mim, respondendo ao meu estímulo. Seguidamente, apanhava cada prontuário e conferia se minhas impressões batiam com os riscos psicossociais, com os diagnósticos médicos e as anotações dos outros profissionais. Depois perguntava aos médicos e técnicos sobre as suas impressões e se havia algum paciente que, sob o ponto de vista deles, precisavam de uma escuta. A segunda volta que dava na sala, passava leito por leito, desta vez ouvindo os que podiam ouvir, me aproximando, segurando a mão. Sempre achei o toque muito importante, principalmente porque a UTI não era um ambiente onde se oferecia estímulos afetivos, às vezes nem nos horários de visita e embora tenha gastado muitos pares de luva daquele hospital, percebia a importância e por isso, nunca passei em um leito sequer sem segurar a mão do paciente enquanto conversávamos, a menos que eu sentisse que o momento não era oportuno. Sempre fui muito feliz no contato com todos os pacientes, porque o respeito e o amor pela vida deles era primordial. Ali aprendi a não julgar mais os médicos por serem ‘insensíveis’, eles também têm suas defesas. Muitas vezes me viam conversar com os familiares, nos horários de visitas e confiavam que podíamos trabalhar como equipe para o bem comum. Muitas vezes fui solicitada pelos médicos até em momentos em que não podia fazer nada além de ficar perto deles. Lembro-me de uma intercorrência,em que um dos pacientes teve uma parada cardíaca e eu era a única psicóloga ali, (poucos psicólogos iam para a UTI porque além de ser uma área de maior risco, a gente lidava com muitas perdas) lembro que o médico gritou: “PSICOLOGIA!!!!” Quando cheguei lá, os médicos e técnicos estavam em cima do paciente tentando ressuscitá-lo, e eu pensei: 'Meu Deus, por que ele me chamou? O que eu vou fazer?' Então apenas fiquei perto, sem dizer nada, só observando a cena de emergência e quieta. Depois entendi que era ele quem precisava e não o paciente. Ele precisava de alguém que lhe passasse segurança e por mais que eu não pudesse fazer "nada", ele precisava da presença de um psicólogo ali. Até hoje não sei se consegui ser útil, mas uma coisa é certa: aquele médico sabia o que era ter um psicólogo por perto, aliás, nós sabíamos.
Encerro assim este relato (um tanto amador) manifestando a minha admiração e a gratidão por todos os profissionais que assistem pessoas nos diversos campos de atuação na nossa sociedade. E finalizo com muita honra por ter escolhido esta profissão. Psicólogos, tenho orgulho de vocês!!Rossana F. Refosco
"Eu tentarei tocar o mundo como Você tocou a minha vida. Eu quero ser Tuas mãos, eu quero ser Teus pés. Eu irei aonde Você me mandar". A.A.
7 de setembro de 2017
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