(Gn. 8.1-22)
"...e durante cento e cinquenta dias a água foi baixando pouco a pouco" Gn 8.17
Sete dias e mais sete dias e mais sete dias...
É verdade que o livramento de Deus sobreveio milagrosamente sobre a família de Noé.
Mas sob quais condições eles ficaram?
Será que foram momentos confortáveis para aquela família, acampados por tantos dias dentro daquele barco?
Apesar de não terem sido levados pelas águas do dilúvio como todo o restante da população e apesar de terem sido escolhidos, o barco devia feder por causa dos bichos e a comida reservada provavelmente prestes a acabar.
Além da higienização do local e possível falta de alimentos, não consigo imaginar como estavam todos eles durante aqueles infindos dias.
Também não entendo quais as questões que aquelas pessoas internamente levantavam.
Será que ainda ficaremos muito tempo por aqui?
Quanto tempo vai durar nossa comida?
E se a chuva não cessar?
Será que sairemos daqui?
Talvez o mais difícil seja suportar "a demora", o ritmo de Deus. O relógio 'ticando' lentamente, como o pulsar de um ciclo cardíaco em sono profundo: sístole - diástole - sístole - diástole
Acontece que eu chorei indiscretamente quando li este texto no metrô, ontem, no trajeto de volta pra casa.
Não consegui me conter. Porque estou exatamente na arca. Cheia de lembranças do milagre, até vivendo o milagre, todavia num lugar sem conforto, sem o aconchego de um lar, sem aquela sombrinha gostosa. Carregando em mim o sonho de pisar outra vez em terra seca, de construir um lugar seguro pra ficar; me assentar debaixo de uma macieira; de viver de verdade. E esta estrada me parece longa, lenta...
Todavia, sinto que a chegada talvez não faça tanta diferença.
Xiiiiiiiii!!! mas vou contar-lhes um segredo: eu tenho pra mim que quem precisa dar cor à caminhada lerda sou eu. Preciso colorir as flores e pintar o meu sol...
Parece-me que tudo faz sentido através da maneira como eu caminho até onde quero ir; a forma como reajo à chuva; no jeito como confio nEle, no Senhor que me colocou num barco fedido para me proteger da tempestade e o quanto eu me entrego a Ele nessa lenta jornada até a conquista dessa terra firme que almejo.
O segredo não está na linha de chegada, mas em como foi o meu trajeto. Para tanto, clamo que Deus me dê a chance de desfrutar, de me entregar e confiar a Ele esse meu caminhar para que possa ter valido à pena cada segundo quando eu chegar lá e meus pés estiverem pisando em um lugar seguro.
" Às vezes o livramento de Deus não se dá em condições agradáveis, mas é certo que as águas baixarão e o sol brilhará outra vez".
A Persistência da Memória, Salvador Dalí, 1931.
Rossana F. Refosco
"Eu tentarei tocar o mundo como Você tocou a minha vida. Eu quero ser Tuas mãos, eu quero ser Teus pés. Eu irei aonde Você me mandar". A.A.
10 de maio de 2018
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