24 de março de 2015

Sym pathos



Tomada por uma sensação de riso sarcástico, juntei as capas do Yancey após a leitura de um pequeno parágrafo, que considerei um tanto ingênuo; a grosso modo: "... Deus aprendeu como é ser uma criatura humana. Tudo o que possamos sentir, Deus sentiu".(YANCEY,2011; p.105)
Não fechei o livro apenas por razão de superficialmente discordar, mas meu intuito era ponderar todo verso;
Não valeria à pena discorrer sobre a vivência dos meus últimos meses, dos quais imaginei Cristo nunca haver passado. Não considerando maior o meu lamento e dor a despeito do dele, mas na tentativa de diferenciar os níveis de relações afetuosas.
Seguida de reflexões, aceitei o desafio de Lucado de evocar apenas alguns dos dias de grande angustia vividos pelo Cristo, cuja narrativa está contida no evangelho marcano, em seu décimo quarto capítulo.

[...]

Não demorou até que eu engolisse o meu crítico senso de humor e me detivesse a alguns relatos no texto:

"... os chefes dos sacerdotes e os mestres da lei estavam procurando um meio de flagrar Jesus em algum erro e matá-lo..." (v.1)
"Então, Judas Iscariotes, um dos doze, dirigiu-se aos chefes, afim de entregar-lhes Jesus. A proposta muito os alegrou, e lhe prometeram dinheiro. Assim, ele procurava uma oportunidade para entrega-lo" (v.10,11)
" O traidor havia combinado um sinal com eles:"Aquele a quem eu beijar, é ele". (v.44)
"Então todos o abandonaram e fugiram" (v.50)
"Pedro respondeu: eu não o conheço". (v.68)



À véspera da festa, havia um plano de traição. O local e os preparativos, haviam sido encomendados pelo próprio Cristo.
A alegria tornou-se um pranto, pois à festa, Cristo anuncia a traição(v.18), a rejeição (negação) (v.30) e o abandono (v.27).
Será exagero dizer que por causa de Cristo, Deus me pode entender?
Entender não apenas na dimensão cognitiva, mas no sentido de sym pathos, ou seja, no sentido de padecer; o mesmo termo descrito na carta aos hebreus 4.15, mostrando que "...Deus se compadece de nossas fraquezas...".
Talvez, se Cristo não houvesse se decepcionado com Deus, ("Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste?" Mc 15.34) não entenderia o sofrimento e teria fracassado em ser humano.
Cristo aprendeu a ter coragem.
Só aprende a ter coragem quem é tentado a fugir.
Os mesmos lábios que declararam-no como "Cristo, filho do Deus vivo"; foram os que disseram: "Não o conheço".


Como não sentiria a minha dor?




Rossana F. Refosco



YANCEY, Philip. Sinais da Graça. Almiro Pisetta. São Paulo:Mundo Cristão; 2011.p.105.
LUCADO, Max. Bênção Diária; Marcelo Santos. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2013.

imagem: Edvard Munch, Vampire II, 1895–1902.

23 de março de 2015

Da entrega


Meditação: A Alquimia da dor

Para Yancey, não fosse a vida e morte de Cristo, o cristianismo seria um grande paradoxo, visto que as coisas das quais mais combatemos em vida, a pobreza e a tristeza, seguem explícitas, e ocupando as primeiras linhas das bem aventuranças. (Mateus 5.3,4)
O próprio Cristo transforma a noção de dor, dignificando-a. "Devido a Jesus, eu nunca posso dizer sobre uma pessoa: "Ela deve estar sofrendo por ter cometido algum pecado"" (YANCEY, 2011, p.104)
Não estamos isentos de tragédias, Cristo também não.
A dor nos ofende.
Em meio a dor, Cristo não orou agradecido, ao contrário, implorou uma saída; Contudo submeteu-se a ela , entregando as questões mais difíceis à soberania do Pai, "...confiando que Deus poderia usar para o bem até mesmo o ultraje de sua morte" (YANCEY, 2011, p.104)

YANCEY, Philip. Sinais da Graça. Almiro Pisetta. São Paulo: Mundo Cristão. 2011.


imagem: Edvard Munch; Melancholy,1981
Rossana F. Refosco

Deus

Não obstante aos meus últimos ocorridos, presumo desnecessário deter-me aos dias que se passam ou ao calendário. Contudo, consinto em não deixá-lo esbranquiçado até que que venha sobre estes, o reparo.
Com tal reflexo de sentimento inusitado, pretendi compor um haicai; três versos não me tomaria o tempo, mas também não me conduziria à cura.
Preciso, para tanto, que meus próximos versos sejam contínuos numa interpretação noética da vida, cuja empiria não os negue, visto que permanece ardente em meu peito.
Não inicio, reitero Deus(ou que chamem de mistério) dos mais profundos desejos de todo o meu sentido.

imagem: Cândido Portinari, escada de corda, 1955.


Rossana F. Refosco

15 de março de 2015

Dimensão Noética

Comi do fruto proibido
E expulsa, segui
Pelo jardim cantando. 

Rossana F. Refosco

Imagem: Leonardo da Vinci; Dama com Arminho; 1485.

6 de março de 2015

28 de fevereiro de 2015

Canção do cego

Uma folha, lapis, violão
Coração na mão
O cego, a canção
Pode ver...

A monografia toda rasgada
Rasura intensa
Rabiscada
Não pode consertar

O coração
Não aprendeu amar

O que ama a vida
Encontra o amor
Recíprocura e encontra
O que nunca perdeu

E o faz seguido
Pelo passo que é o mesmo
no caminhar
Seja ao jardim
ou à Amar

De amante
da própria vida
Às vezes faz bem
olhar pra atrás.

Imagem: Francisco de Goya, Saturno devorando a su hijo (1819-1823)

28/01/2015

Rossana F. Refosco

Num raio de sol

No sol, na manhã Areia do mar Me assentava esperando você Dourado o chão Toda luz em mim Entre o som das ondas A sua voz E no fechar dos o...