4 de abril de 2016

O encontro


João 4.6-43
Depois de ouvir a narrativa do encontro de Jesus com a mulher samaritana, surpreendi-me com a questão retórica:
“E eu, o que tenho a dizer sobre o meu encontro com Cristo?”
Talvez eu não tenha nada a dizer sobre este encontro; Local, data, sensação... Senti como se tudo isso se tivesse passado desapercebido.
Mas algo tenho de igual modo àquela mulher, pensei: ambas não conseguimos nos conter depois dele, e não exatamente pelo meu dizer, mas pelo meu ser.
Eu diria que a beleza de nosso encontro não “aconteceu”, no pretérito perfeito; Este verbo intransitivo está no presente: ele acontece.
Mas não deixei, por assim ser, de olhar para atrás, porque observando o trajeto, percebo que o verbo pode ser conjugado no gerúndio, indicando que este nosso encontro não é estático.
Nasci num contexto bem Cristocêntrico, no entanto, o meu contato com a figura de Cristo estava associada mais a um débito que eu tinha, principalmente pela razão de não ter tido uma infância tranquila, dentro dos padrões de comportamentos adequados.
Cristo era aquele cara que eu não conseguia obedecer e, embora a possibilidade de eu ir pro inferno, pelo meu mau comportamento, fosse grande, eu não conseguia fazer nada do que ele queria.
Em resumo, minha relação com Cristo era de pura dívida.Um fardo pesado demais.
Por causa disso, durante anos senti o peso da responsabilidade e o medo por não conseguir cumprir tudo o que precisava; mesmo que acertasse em alguns pontos, acabava errando em outros, então a dívida nunca tinha um fim e eu nunca me sentia feliz;
Confesso que com a maturidade, o débito foi diminuindo porque eu tentava fazer com que meus atos e minha reputação fossem irrepreensíveis e acabava agindo conforme a lei.
Aprendi a me comportar de maneira adequada porque achava que Deus esperava isso de mim.
Meu compromisso era unicamente horizontal – entre Deus e eu e o que atravessasse esta relação era totalmente sem importância pra mim.
Me importava amar a Deus e obedecê-lo. Passava horas lendo a bíblia e orando, o restante era secundário.
Mateus 6.33 ("Buscai em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça e as demais coisas vos serão acrescentadas") significava isto: Deus primeiro e todo o resto era sem importância
Pela fé, eu matava e morria; pela obediência, fiz escolhas erradas e pela religião, não amava."Apenas" Deus importava.
Depois de cumprir as leis, achei que Deus fosse me retribuir, mas Ele não o fez. Pela fé, pequei.
Me disseram, que se eu fosse fiel em cumprir a lei, eu seria feliz, porque o resultado da obediência era felicidade certa.
Mais tarde aprendi que felicidade e paz eram diferentes e, por vezes, elas eram inversamente proporcionais.
Foi no caminho da injustiça que descobri que o amor de Deus tinha a ver com Cristo e não comigo. Não era o que eu fazia ou deixava de fazer, mas o que Cristo já havia feito. Nem méritos, nem deméritos.
Entendi que o amor de Deus era impossível de conquistar e impossível de se perder.
Entendi que a lei respalda o pecado, então abri mão dela.
Assim, meu encontro com Cristo resultou em libertação. (“...a verdade vos libertará”. João 8.32)
Quando abri mão da lei, percebi Cristo em mim, porque não precisava mais dela, contudo, minha responsabilidade, por certo, aumentara significativamente.
A partir deste encontro percebi que quando um idoso chega, eu não preciso estar num assento prioritário para dar meu lugar.
Desta forma, entendi que este encontro com Cristo pode transformar o mundo de verdade.
É este o meu encontro com Cristo, dia após dia, no meu caminhar;
Não porque obedeço as leis, mas porque Ele vive em mim.
E vivo assim, como aquela mulher, sem conseguir conter este amor que um dia recebi apesar de ser quem eu sou.

Rossana F. Refosco

14 de março de 2016

Soneto claro


O dia que antes frio, de cor baça
Revira-se: leve rio, precípite passa
Vai-se assim, impetuoso tempo curto
Coração, contigo são, meu bem, meu furto

Tal qual formosura da vidraça
Espelho que o calor não embaça
Vieste-me fazendo elo em tudo
A cura, o riso, a paz, o escudo

Como pode doce e suave teu falar?
Que descreve belo cada pensamento
Generoso e puro jeito de amar

Fazendo-me assim pensar por um momento
Que a vida em si é dada a me deixar
Feliz em cada seu contentamento




Rossana F. Refosco


The Key to the Fields; Rene Magritte; 1936.

15 de fevereiro de 2016

Desacerto

(A Mário Quintana)


Aos poucos jazia
A folha antes verde,
Amarelar-se-ia.
E os muros altos?
-Quebrados
-Demolidos
Estardalhaço!
Pelo olhar que amou
-Estimou
-Assustou
Estremeceu
Reviveu
Em flores rosas, violetas
Margaridas,
Coloridas
E o céu pintou-se azul
E o jardim
Floresceu.

Rossana F. Refosco



Imagem: Jardim com Flores; Van Gogh; 1853-1890.

16 de dezembro de 2015

Generoso

Desdenhaste-me à míngua.
Sua falsa mão estendida
Dará talvez a mim
Sempre poesia.
Minha, apenas minha.
Visto que não vales
A merda nem o odor das fezes.
Por ti apenas a pena,
Que extremamente pobre és.

Rossana F. Refosco

Alucinose

Vez em quando ele volta
E bagunça a casa
Vez em quando ele chega
Atravessa quem passa
Me confunde a cabeça:
Esquizofrenia

Rossana F. Refosco

Num raio de sol

No sol, na manhã Areia do mar Me assentava esperando você Dourado o chão Toda luz em mim Entre o som das ondas A sua voz E no fechar dos o...