19 de março de 2017

O lado

Não ousaria odiar
Quem me traiu
A traição revela os lados.
Nunca me perdoaria
Mentir ao amor.
Ando leve
Não fui eu.
E apesar,
Nunca serei.
Nunca mentirei a um amor.
É este o meu lado.


Rossana F. Refosco

Domingo

Foi um domingo feliz
E que acordei poeta
E vivi.
Ah! se vivi.
Cantei, brinquei
Escrevi versos sem lápis
E esqueci
Mas podia morrer
Porque hoje cantei
Todas as canções do disco
E fechei os olhos no banho
Sentindo a água morna escorrer...
Seja o que for
É bom...
É muito bom viver.
E me orgulhar de quem sou
E como amo
A vida com paixão!!!
Rossana F. Refosco

14 de fevereiro de 2017

Memórias de um catorze

Terei de me enfraquecer
De pôr as mãos na nuca
Lamentando os idos
E olhar pr'atrás
E ver que fui...
Jurando que tentei
Outros lábios beijar
E amar, amar...
E de novo fui feliz
E amei...
Porque a danada da felicidade
me persegue
E as borboletas voam
As flores e o jardim
Estão então aqui
Assim, por dentro...
Mas terei de fingir-me triste
E escrever
Pra descrever
Porque ser feliz com você
Foi melhor
Mas teve fim.
E a pureza
Que hoje me deixa nua
Me faz querer ser [de novo] sua.
E mesmo, enfim,
Sabendo que nunca
E que me pareça 'kitsch'
Terei de hoje me lembrar
De você.


Rossana F. Refosco

18 de janeiro de 2017

Seu veredito:'culpado'!

Da seção de livros poéticos contidos na bíblia, tenho bastante estima por Jó.
Não há evidências de que sua história seja real, e sobre o autor, alguns eruditos sugerem Moisés, outros descrevem o sábio Salomão, mas a sua autoria é incerta.
Sobre sua veracidade, há suspeitas de tratar-se de uma trama.
Embora considerado um enredo fictício, contém nas linhas e entrelinhas desta biografia, verdades divinas e também humanas, que para mim evocam sobremaneira um pensamento: o de não subestimar a relação pessoal e íntima de um indivíduo com Deus, pondo em cheque a admirada e maldita meritocracia, muito querida por alguns.
Em Gênesis, observo a ação de Deus, como de alguém que preserva aqueles que são justos.
Em detrimento de toda a maldade que se instalou no mundo, desde a queda do homem, surgiram pessoas nas quais motivaram o criador a acreditar na possibilidade de restauração de toda a humanidade,por isso a destruição que sobreveio nos tempos antigos, não atingiu a família de Noé.
Os relatos mostram o cuidado de Deus sobre a geração de Abrão, Ló, Isaque, Jacó, José...
Enfim, se tivesse de usar um termo para definir tais ações de Deus no primeiro livro do pentateuco, seria: 'preservação'. Mas Ele tem seus propósitos eternos, que muitas vezes não compreendemos.
Nos primeiros capítulos do livro de Jó, as cortinas se abrem com a exposição clara e objetiva, que identifica a prosperidade e integridade do protagonista.
Seguidamente, o próprio Deus exibe orgulhosamente o seu filho à Satanás, descrevendo-o como "íntegro, reto, honesto, leal à sua palavra, totalmente consagrado a Deus e que odeia a maldade"(1.1-8).
Diante da tragédia que resultou em perdas, tanto de bens, quanto de todos os seus filhos, Jó permanece triste, porém, sem pecado, afirma o narrador; sua fé e confiança continuam voltadas para o Criador, declarando-se submisso à soberania divina: "O Senhor deu, o Senhor tomou, bendito seja o nome do Senhor" e, ainda: "Nú saí do ventre e nú retornarei, o nome de Deus seja louvado". (1.21-22).
No episódio que sucede, Deus, para garantir ao inimigo que a fé de Jó era indestrutível, permite que Satanás toque em sua saúde, agora era a vez de mexer em sua homeostasia.
Diante da enfermidade, Jó prefere ficar em silêncio, negando a proposta (para ele, insana) da esposa, de amaldiçoar a Deus.
O narrador mais uma vez entra em cena apenas com uma frase evocada do meio do redemoinho: "Apesar de tudo, Jó não pecou". (2.10)
Finalmente recebe a visita de alguns amigos que acompanham seu sofrimento "de perto" e lamentam durante 7 dias e 7 noites sem dizer sequer uma palavra, tamanha era a dor de Jó.
Passados estes dias, Jó sente necessidade de quebrar o silêncio, expressando o seu desejo pela morte, com o intuito de aliviar um pouco sua tortura.
Após o desabafo de Jó, um de seus amigos, Elifaz, repreende Jó, apresentando-lhe acusações à sua pessoa.
Ele discursa sobre as verdades de Deus como se Jó não O conhecesse de fato e de experiência.
Para ele, Jó certamente houvera pecado para que lhe sobreviesse tamanho castigo.
Jó não precisava de conselhos, precisava sentir-se compreendido, sentir-se consolado, mas ao contrário, ficou desapontado, continuou sozinho e comparou os seus amigos a "um rio que seca no verão"(6.14-23).
Todavia, de uma coisa Jó tinha convicção: sua integridade diante de Deus; e, sem máscara, confessava a sua desesperança pelo mal que lhe ocorrera.
É a vez do outro amigo Bildade, ele também discursa sobre os atributos de Deus e Sua capacidade, julgando Jó de haver pecado e afirmando que seus filhos também haviam pecado, por isso Deus os castigara; Ele propõe que Jó urgentemente se arrependa, tentando lançar sobre ele o peso da culpa.
A defesa de Jó (cap 9) não é uma exposição de alguém que apenas conhece a Deus, mas que de fato tem uma proximidade com Ele.
Jó mais uma vez declara a sua inocência (9.21), mesmo sabendo que fora-lhe dado pelo amigo o veredito:'culpado'.
O que Jó desejava era paz, um mínimo de alívio para a sua dor e, apenas na morte estava sua esperança; ele expressa honestamente todo sofrimento de sua alma, ainda que sem consolo algum.
-Jó, você pensa que não temos a resposta?
Pensa que sua zombaria nos fará calar?
Você diz que é inocente, mas eu gostaria que Deus mesmo lhe desse a resposta; assim você entenderia que Ele o está castigando menos do que o que você merece. Arrependa-se, volte o seu coração para Deus. Abandone o pecado de suas mãos e Ele o curará". (11.3-20)
São estas as palavras do seu terceiro amigo, Zofar.
Que discurso tenho a oferecer para um coração em sofrimento?
Quando um coração dói, não precisa de discursos sobre Deus, precisa de afeto; não precisa de religião, porque a única palavra que se encaixa com dor é amor e amor é o que o amor faz.
Jó não tinha necessidade de juízes ou donos da verdade, muito menos de quem apresentasse o Deus que ele já conhecia.
Não precisava de um ultimato, mas de empatia,de uma escuta compreensiva, porque se estamos em uma caverna, o que precisamos é de alguém que entre lá, mas entre de verdade, alguém que tenha medo e chore conosco, que veja, aliás, sinta a escuridão e nos ajude a sair de lá.
Jogar uma corda às vezes não basta, é preciso descer, ir até a caverna para tirar quem quer que seja de lá.

Ref.: Bíblia -"A mensagem" -versão de Eugene Peterson.
Imagem: François ler en César; Francesco Primaticcio; séc XVI;

Rossana F. Refosco

4 de janeiro de 2017

Relatos de uma prostituta

Aconchegada
Um degrau abaixo do Teu
Ao som de Sua voz
Assentei-me junto de Ti
A prosearmos
Deleitando-me em cada história
Apreciando, sem pressa
Sua companhia [...]
Escolhi, naquela tarde
A melhor parte
E o adorei e amei
À escada da nossa casa...
Sabíamos da minha sentença
Conhecíamos o olhar do desprezo
Todavia o dEle...
O dele me trouxera a cura
A leveza
Alívio de minh'alma
Devolvera-me o riso
Por isso eu quis ficar ali
Aos Seus pés.
Houvera visto lugar aconchegante,
Mas pessoa aconchegante, não...
Apenas Ele
E as lembranças daquele dia
Em que rimos das mesmas piadas
Tomamos o mesmo vinho
Cantamos a mesma canção...
Ali, na escada,
Guardei comigo
As lembranças daquele encontro
E de Seu olhar...
Cristo
Admirável
Me tirou os medos,
Desconsiderou meus erros...
Me fez feliz
E como sou
Me amou
Aniquilou minha pena
Tornei -me, então
Maria Madalena.

Imagem: Amor e Dor; Edvard Munch 1893 e 1894.
Rossana F. Refosco

29 de dezembro de 2016

Geni e o vendedor ambulante


“As guerras só podem ser impedidas se as pessoas estiverem prontas a ser perseguidas por não participarem delas. É o único meio”. Leon Tolstoi
O último texto que escrevi falava sobre os mortos-vivos, na verdade, os vivos-mortos.
É possível que no mesmo momento em que eu estava debruçada sobre lápis e caderno, registrando minhas anotações, aquele “senhorzinho” estava lá, na estação Pedro II, ao chão da capital paulistana sendo espancado.
Quem lembraria do senhor Luiz Carlos Ruas?
Tinha seus 54 anos e desempenhava um papel insignificante:Vendedor ambulante. As pessoas esquecem que não era isso que ele era, era isso que ele fazia. Ele era muito mais.
A morte de Luiz pra mim é bem mais do que um retrato de crueldade.
Na paisagem panorâmica brasileira, há uma imagem ensanguentada.
O texto que escrevi sobre “os mortos vivos e o natal” pareceu profético, retrata a escassez do bem.
Sinto-me como nos tempos de Ezequiel, ao relento; sobre ou sob; diante ou submersa (não sei ao certo) no vale de ossos secos.
Pessoas mortas e desalmadas é o que encontramos por aí.
Estamos num tempo em que um “bom dia” causa até desconfiança.
Por mais que você possibilite uma relação de confiança e acredite na esperança de encontrar alguém do bem, ao fim, descobre que mais uma vez você errou.
Não diria exatamente o mal, mas o bem pervertido parece prevalecer.
Mas esta figura do quadro da noite do episódio no metrô de São Paulo, está longe de ser de ódio e de assassinato, nem de perto parece a morte da qual falara anteriormente, pelo menos a morte do vendedor;
A morte, o ódio e o assassinato, para minha interpretação, está no calabouço da imagem, porque embora o espancamento, o maltrato, a injustiça e a maldade também estejam pintadas, elas não são o foco de meus olhos.
Se alguém se expôs para defender um transexual, classe marginal e vítima do pior tipo de preconceito na nossa sociedade, é porque o bem não morreu.
Se alguém viu o mal e se opôs, o bem prevaleceu.
Alguém entendeu que era mais importante ser humano do que ser homo, heterossexual ou o que quiser ser além.
O natal estava ali, na escuridão daquela estação, mais do que em muitas mesas fartas de famílias reunidas, porque alguém resistiu à injustiça e se opôs à maldade.
Seu Luiz significa esperança; um grão de trigo que morreu para florescer, pelo menos em mim e, espero que também naquele travesti, que fora a última pessoa que ouviu o pedido do seu Luiz em sua defesa: “Não faz isso com o rapaz!”, em outras palavras: "Não joga pedra na Geni".
Se o mal foi imenso naquele dia, o bem maior ainda, porque o único meio de acabar com a guerra é se opondo a ela.

Pelo assassinato do Senhor Luiz Carlos Ruas, 54 anos; por defender um transexual na noite de 25 de dezembro de 2016; na estação Pedro II; São Paulo; Brasil.

Imagem:Arranjo em preto e conza nº 1 (retrato da mãe do artista);James McNeill Whistler; de 1871
Rossana F. Refosco

26 de dezembro de 2016

O primeiro natal

O primeiro natal não parece, nem de longe, com o que aparece nas fotos, reuniões familiares e cartões natalinos.
Primeiro, a notícia que o anjo deu a Maria - uma adolescente solteira - não poderia ter sido "pior".
Era lei que a mulher que engravidasse solteira, fosse considerada adúltera com o risco de ser apedrejada.
Enquanto Isabel exibia o milagre em seu ventre, Maria e José escondiam.
Como se não bastasse a notícia e desconfiança de José quanto a fidelidade de Maria, ainda tinham que sair do próprio aconchego e fugir do conflito de Roma, do massacre do psicopata Herodes.
Não houve paz no primeiro natal.
Segundo alguns repórteres, a rápida visita da rainha Elizabeth II aos EUA, custou aproximadamente vinte milhões de dólares. Seus pertences pesaram seis mil e oitocentos quilos de bagagem, quarenta quartilhos de plasma e assentos de pelica branca para vasos sanitários. Trouxe camareiros, cabeleireira e inúmeros atendentes.
Um humilde contraste, a visita de Deus à terra aconteceu numa estrebaria; sem presentes e sem lugar pro recém nascido deitar além de um cocho. O acontecimento que dividiu a história, talvez tenha tido mais testemunhas animais que humanas. Deus, em Cristo, deitou-se a ser dessecado pelos céticos e correu o risco de ser vítima analítica de incrédulos. Ele se expôs porque não tinha do que temer. Sua glória era fazer-se igual. Ele esvaziou-se de si mesmo e veio ao mundo também como um ovo fecundado.

24 de Dezembro de 2015
Inspirado em : YANCEY, Phillip. O Jesus que nunca conheci.
Rossana F. Refosco

Num raio de sol

No sol, na manhã Areia do mar Me assentava esperando você Dourado o chão Toda luz em mim Entre o som das ondas A sua voz E no fechar dos o...