3 de novembro de 2018

Soteriologia

Eu, a prostituta, fui flagrada
Debaixo dos lençóis
Os homens que procuravam me matar
Quiseram te testar

Porque era grave o meu pecado
Meu corpo atolado em lama estava
E os que cuspiam o meu rosto
A Ti me levaram

Você olhou pra mim
Seu amor me constrangeu
As pedras já nas mãos
Mas Você o perdão me deu
Foi assim que me salvou


João 8.1-11


Rossana F. Refosco

2 de novembro de 2018

Dia dos mortos

Dei pra chorar
E o canto da boca
Onde havia riso
Me fez molhar

E me inundou com pranto
O nosso verde é branco
A seringueira no mato
Restou o estardalhaço

Que soa como exagero
Um conto meio corriqueiro
Sob ameaça do hostil

O nosso oxigênio
O ouro deste milênio
Mataram meu Pau Brasil


Rossana F. Refosco

30 de outubro de 2018

A morte de Deus

Rio, 29 de Outubro de 2018

Me vesti de preto.
E meu humor acompanhou o gueto
A sensação de medo me acendeu no peito.

Porque ontem, um pouco eu morri.

E a esperança se esvaiu repentina
A desgraça sussurrou numa rima
E a verdade que agora alucina
A Palavra matando um travesti

A generosidade que me cercava se deu por sumida
Vi pessoas outrora boas, más ou omissas.
Não merecendo que me pusesse em pé para que se sentassem
Nem que eu dissesse que tinha fé pra que esperançassem.

Porque estou só.

E morro cada dia um pouco
A injustiça deixa o povo louco
Fartando a mesa do povo rico
O que sobeja-lhes vira lixo

E, assaltada, querendo nada, fico a chorar
Sob os tetos-telhados, na casa sem chão a lamentar
Imundos ossos finos, olhos fundos,
Ouço zumbidos da dor do meu mundo

Os índios bem fracos ficando mais mudos
A fé ignorando o absurdo
E Deus mendigando na porta da Igreja
Dois homens armados, bebendo cerveja
Invadem Sua casa e Lhe tira a vida.

Rossana F. Refosco

11 de outubro de 2018

Sobre a generosidade

Era o vigésimo sexto dia e nono mês do presente ano.
Exatamente dez dias antes das eleições. Rumores de ódio pairavam de um lado e do outro e o domínio do mal, ainda que sem resultado eleitoral algum, já se fazia real.
Era a presidência que eles disputavam.
O atual governo, apesar de uma bomba nacional de corrupção ter estrondado na varanda de sua casa e arrasado quase toda a economia do país, estava presente numa pessoa de bem, Fernando Haddad, todavia, cambaleando entre a lama, que por vezes sujava seus pés devido à má fama dos outros.
Os candidatos que para o povo eram fichas limpas pareciam desarmados demais para o cargo - Marina, Boulos, Daciolo, Amoedo, Meirelles, (posso pular o Álvaro Dias?)e Ciro, que ao meu ver, destes, talvez, parecesse o mais coerente e preparado pelo seu histórico político. Por vezes impulsivo na fala e nos modos, sem muita discrição.
Em extrema direita, o capitão.
Surgiu como o salvador da pátria, com discurso que todo bom brasileiro aplaude: Deus, família e uma sementinha de esperança para romper com toda a sujeira na qual o congresso estava submerso.Boa parte parece confiar nele. Me parece, que passou um tempo estudando o país com um dos maiores empresários do Brasil- Edir Macedo. Sabe exatamente o que a população brasileira é religiosa e atacou tudo o que a igreja ataca e amou o que ela ama, principalmente a justiça. Homem honesto por dizer a verdade sem se importar aonde vai chegar nem quem vai desnudar. Tudo o que queríamos: um corajoso que rompa com todo esse sistema de corrupção. Escolheu a estratégia certa para o desesperado - Ele- Bolsonaro, o mito. Quem não confiaria num capitão? Era este o contexto que nós dois estávamos. E apesar do meu coração pesado pelo que eu enxergava para além do “Deus acima de tudo”.
Os dias estavam sombrios e escureceu ainda um tanto quando Bolsonaro dera as mãos à noiva, não à sua, mas a que deveria estar com os potes de azeites cheios.
Como ela conseguiu, eu não imagino, mas deu.
E quando a adúltera foi trazida por ele, flagrada no ato do adultério, ao contrário do que o noivo faria, ela foi e lhe apedrejou. Apedrejou os negros, apedrejou os gays e apedrejou todos os que discordavam do falso noivo...
Exausta de coração, mas de mãos sempre leve, carregando meu filho de oito anos, me dirigi, como todos os dias, à caminho do metrô, seguindo para o trabalho e para me aquietar naqueles 36 minutos de viagem da estação Uruguai, ao terminal Botafogo.
Finalmente, mesmo sob a atmosfera deste contexto hostil e de crise moral da igreja, nos aproximamos dos assentos cinzas e nos sentamos.
Ora aflita, ora culpada, ora com raiva, ora confusa... abaixei minha cabeça ao lado da do pequeno, como temos feito, não com a frequência que gostaríamos (graças ao candy crush) e disse: vamos fazer nosso momentinho com Deus? -Vamos. Mas quando chegar na Presidente Vargas eu quero jogar! Eu não esperava nada mais espiritual que isso. Só topei. Abro a mochila, tiro o caderninho, a Bíblia é um livreto de estrelinhas, que ele ganha quando capricha no desenho. Enquanto ele procurava na Bíblia a história que paramos, eu escrevo a data e o título da história. Assim escrevia enquanto ele ditava: A parábola dos trabalhadores da vinha ( Mt. 20.1-16)
Meus olhos marejados, passeavam pelo texto, por cima daquelas linhas e a minha mente voltava para a era de Cristo.
Ele falava ali do REINO DE DEUS. Afirmando que era como um proprietário que tinha uma vinha e saiu para contratar trabalhadores. Eu usei a moeda real (R$) Porque ficava mais fácil pro guri entender, então troquei um denário, por R$ 100,00. Então, ele saiu cedo e contratou alguns trabalhadores, negociando a diária do trabalho no valor de R$100,00. As 9:00h saiu de novo (a esta altura eu já estava quase chorando porque conhecia o texto e sabia como ele iria me trazer luz) e contratou mais uns, 12:00h outro, às 15:00h outro e às 17:00h encontrou uns desocupados e perguntou por que estavam desocupados, eles responderam que NINGUÉM OS HAVIAM CONTRATADO. Assim, o proprietário foi e os convocou também.
Ao fim da tarde, o patrão chama todos e diz ao seu servo: agora vai e paga o salário deles COMEÇANDO DO ÚLTIMO ATÉ O PRIMEIRO. E fez assim. Mas os primeiros quando viram o pagamento dos últimos pensaram que receberiam mais, já que seria justo porque trabalharam o dia todo no sol. A surpresa foi que ganharam o mesmo valor. Ao ouvir a queixa dos primeiros contratados, ele disse: Não vos dei o pagamento justo, como havíamos combinado?!? Vocês estão com ciúmes porque fui generoso?
Um contexto canceroso temos experimentado com uma intensidade nunca vista, daí penso o quanto a generosidade deve exceder a justiça. Até porque se Deus fosse justo, eu não estaria escrevendo agora é nem você lendo. Deus não é justo! Deus é puro amor!
Se de um lado a irreverência de um povo que não tem referência do que é santo, do outro os que são santos, advogando a causa de Deus sem necessidade porque a Sua maior causa são os do lado de lá. Sua maior causa é a vida, Ele veio para os de lá, né? Os sem contrato. Para as putas, as vadias e os viados aos quais estamos perseguindo. Como se persegue os que deveriam ser alvos do amor por serem minorias?!?!
Foi naquele ar descansado, como de ovelha na graminha verde sob a macieira, que entreguei a caneta pro pirralho porque fazemos também uma listinha de oração e digo: agora é a sua vez.
Ele então escreve sem cola, encantado pelo texto e ansioso pela estrelinha, o título: Oração especial e, pasmem, eu precisando ainda de oração, na expectativa dele escrever ao lado do número 1, Mamãe, ele vai e copia: Mike.
O primeiro da lista dele é o cãozinho de estimação, único verdadeiramente puro.
E como quem quer dizer que a história valeu, também descreve seu desejo de aprender a ser generoso.
E quase antes do amém: “Estação carioca, portas se abrindo”.
“Mamãe, você extrapolou o tempo, me dá o celular!”
Eu também cheguei em Botafogo querendo aprender a ser generosa, e qualquer discurso diferente disso me escandaliza. Só porque Ele não quer que eu seja assim pelo fato dele não ser assim.

Rossana F. Refosco

18 de julho de 2018

Ilusão etílica

Já se passou tanto tempo
E a dor vez por outra volta
Como quem não quer morar, só visitar
E a lembrança que parecia morta,
Se refaz e desfaz
Com tamanha força
Que ampara o choro
Por não tê-lo mais, nem em mim
De parecer-me morto
Dói.
Por ter-se ido
O amor lindo, me aduzindo
E com teor de vinho
Pus - me, de novo, a chorar
Desconhecendo o motivo
De não sobrar-me riso
Na falta que'inda me faz
Saudade?
Se sob o etílico vento que me chega
Encontro o nada
Fingindo a fuga
Nos amantes que ocuparam seu lugar-
A bagatela!-
Embriagada acordo e rio
Com sintomas de ressaca:
Dor de cabeça,náusea e frio.
Com memórias Lúcidas
Apenas do Montecchio
Italiano,Lambrusco Rosé.



Rossana F. Refosco

Imagem: El petó furtiu, Jean-Honoré Fragonard, 1787.

4 de julho de 2018

Suficiente

Eu tinha uns 4 anos quando memorizei “O Senhor é o meu pastor e nada me faltará”. Salmo 23.1.
Conheço pessoas que decoram a casa com plaquinhas deste verso, usam como imã de geladeira (minha avó) e há quem deixe a Bíblia aberta neste texto.
Apenas aos 23 anos fui compreender de verdade, qual era a de Davi, o escritor deste salmo.
Foi na manhã do dia 03 de novembro de 2008, que Deus soprou esta música (texto abaixo) aos meus ouvidos e, em uma das estrofes, apesar de eu ter alterado na última edição, no refrão, a letra dizia: “O Senhor é o meu pastor e de NADA terei falta”.
Esta é a verdadeira interpretação deste versículo.
Naquele dia, Deus começou a me ensinar na prática, o significado desta frase.
Pra quem pensou que o “nada faltaria”, seria como se Deus fosse corresponder aos nossos desejos, dar respostas às nossas perguntas, suprir materialmente as nossas necessidades e não deixar faltar nada, se enganou.
O Salmo quer dizer que o pastor é suficiente para a ovelha. Que com a sua companhia, ela não dará falta de absolutamente nada. Ele, o bom pastor, satisfaz. Quem o tem, estará satisfeito.
Ele me deu essa canção logo cedo. Lembro de ter achado uma letra forte e bonita. Mal sabia eu que horas depois, meu casamento, que era um sonho muito desejado, realizado há apenas 15 dias, começaria a afundar, se acabar...
Ele, o meu pastor, quis me consolar, talvez me preparar para aquela tão grande dor.
E, antes mesmo da primeira lágrima cair, o meu pastor, já estava sussurrando aos meus ouvidos essa canção de amor, para me lembrar do que eu já “sabia” desde os meus quatro aninhos, que Ele é suficiente pra mim.


Música do vídeo:

Mais altos

As coisas ficam diferentes
Tudo muda de lugar
O que era bom, pode não mais ser
Ou continuar
A história pode ter outro final
Os personagens podem nem ser os mesmos
Pode faltar o pão
E apagar a luz
Pode não ter o que se quer
Todo dinheiro acabar

Mas eu estou bem certo
Que Ele é poderoso
Para fazer além do que eu sonhar
Mesmo que não se cumpram
Nenhum dos meus projetos
Contigo ao meu lado
Tudo já deu certo

Assim como os céus são
Mais altos que a terra
Assim seus pensamentos são
Mais altos que os meus
Meus olhos não enxergam nem o próximo segundo,
Mas os seus...

Rossana F. Refosco

10 de maio de 2018

O ritmo de Deus

(Gn. 8.1-22)

"...e durante cento e cinquenta dias a água foi baixando pouco a pouco" Gn 8.17

Sete dias e mais sete dias e mais sete dias...
É verdade que o livramento de Deus sobreveio milagrosamente sobre a família de Noé.
Mas sob quais condições eles ficaram?
Será que foram momentos confortáveis para aquela família, acampados por tantos dias dentro daquele barco?
Apesar de não terem sido levados pelas águas do dilúvio como todo o restante da população e apesar de terem sido escolhidos, o barco devia feder por causa dos bichos e a comida reservada provavelmente prestes a acabar.
Além da higienização do local e possível falta de alimentos, não consigo imaginar como estavam todos eles durante aqueles infindos dias.
Também não entendo quais as questões que aquelas pessoas internamente levantavam.
Será que ainda ficaremos muito tempo por aqui?
Quanto tempo vai durar nossa comida?
E se a chuva não cessar?
Será que sairemos daqui?
Talvez o mais difícil seja suportar "a demora", o ritmo de Deus. O relógio 'ticando' lentamente, como o pulsar de um ciclo cardíaco em sono profundo: sístole - diástole - sístole - diástole
Acontece que eu chorei indiscretamente quando li este texto no metrô, ontem, no trajeto de volta pra casa.
Não consegui me conter. Porque estou exatamente na arca. Cheia de lembranças do milagre, até vivendo o milagre, todavia num lugar sem conforto, sem o aconchego de um lar, sem aquela sombrinha gostosa. Carregando em mim o sonho de pisar outra vez em terra seca, de construir um lugar seguro pra ficar; me assentar debaixo de uma macieira; de viver de verdade. E esta estrada me parece longa, lenta...
Todavia, sinto que a chegada talvez não faça tanta diferença.
Xiiiiiiiii!!! mas vou contar-lhes um segredo: eu tenho pra mim que quem precisa dar cor à caminhada lerda sou eu. Preciso colorir as flores e pintar o meu sol...
Parece-me que tudo faz sentido através da maneira como eu caminho até onde quero ir; a forma como reajo à chuva; no jeito como confio nEle, no Senhor que me colocou num barco fedido para me proteger da tempestade e o quanto eu me entrego a Ele nessa lenta jornada até a conquista dessa terra firme que almejo.
O segredo não está na linha de chegada, mas em como foi o meu trajeto. Para tanto, clamo que Deus me dê a chance de desfrutar, de me entregar e confiar a Ele esse meu caminhar para que possa ter valido à pena cada segundo quando eu chegar lá e meus pés estiverem pisando em um lugar seguro.
" Às vezes o livramento de Deus não se dá em condições agradáveis, mas é certo que as águas baixarão e o sol brilhará outra vez".


A Persistência da Memória, Salvador Dalí, 1931.

Rossana F. Refosco

Num raio de sol

No sol, na manhã Areia do mar Me assentava esperando você Dourado o chão Toda luz em mim Entre o som das ondas A sua voz E no fechar dos o...