18 de julho de 2018

Ilusão etílica

Já se passou tanto tempo
E a dor vez por outra volta
Como quem não quer morar, só visitar
E a lembrança que parecia morta,
Se refaz e desfaz
Com tamanha força
Que ampara o choro
Por não tê-lo mais, nem em mim
De parecer-me morto
Dói.
Por ter-se ido
O amor lindo, me aduzindo
E com teor de vinho
Pus - me, de novo, a chorar
Desconhecendo o motivo
De não sobrar-me riso
Na falta que'inda me faz
Saudade?
Se sob o etílico vento que me chega
Encontro o nada
Fingindo a fuga
Nos amantes que ocuparam seu lugar-
A bagatela!-
Embriagada acordo e rio
Com sintomas de ressaca:
Dor de cabeça,náusea e frio.
Com memórias Lúcidas
Apenas do Montecchio
Italiano,Lambrusco Rosé.



Rossana F. Refosco

Imagem: El petó furtiu, Jean-Honoré Fragonard, 1787.

4 de julho de 2018

Suficiente

Eu tinha uns 4 anos quando memorizei “O Senhor é o meu pastor e nada me faltará”. Salmo 23.1.
Conheço pessoas que decoram a casa com plaquinhas deste verso, usam como imã de geladeira (minha avó) e há quem deixe a Bíblia aberta neste texto.
Apenas aos 23 anos fui compreender de verdade, qual era a de Davi, o escritor deste salmo.
Foi na manhã do dia 03 de novembro de 2008, que Deus soprou esta música (texto abaixo) aos meus ouvidos e, em uma das estrofes, apesar de eu ter alterado na última edição, no refrão, a letra dizia: “O Senhor é o meu pastor e de NADA terei falta”.
Esta é a verdadeira interpretação deste versículo.
Naquele dia, Deus começou a me ensinar na prática, o significado desta frase.
Pra quem pensou que o “nada faltaria”, seria como se Deus fosse corresponder aos nossos desejos, dar respostas às nossas perguntas, suprir materialmente as nossas necessidades e não deixar faltar nada, se enganou.
O Salmo quer dizer que o pastor é suficiente para a ovelha. Que com a sua companhia, ela não dará falta de absolutamente nada. Ele, o bom pastor, satisfaz. Quem o tem, estará satisfeito.
Ele me deu essa canção logo cedo. Lembro de ter achado uma letra forte e bonita. Mal sabia eu que horas depois, meu casamento, que era um sonho muito desejado, realizado há apenas 15 dias, começaria a afundar, se acabar...
Ele, o meu pastor, quis me consolar, talvez me preparar para aquela tão grande dor.
E, antes mesmo da primeira lágrima cair, o meu pastor, já estava sussurrando aos meus ouvidos essa canção de amor, para me lembrar do que eu já “sabia” desde os meus quatro aninhos, que Ele é suficiente pra mim.


Música do vídeo:

Mais altos

As coisas ficam diferentes
Tudo muda de lugar
O que era bom, pode não mais ser
Ou continuar
A história pode ter outro final
Os personagens podem nem ser os mesmos
Pode faltar o pão
E apagar a luz
Pode não ter o que se quer
Todo dinheiro acabar

Mas eu estou bem certo
Que Ele é poderoso
Para fazer além do que eu sonhar
Mesmo que não se cumpram
Nenhum dos meus projetos
Contigo ao meu lado
Tudo já deu certo

Assim como os céus são
Mais altos que a terra
Assim seus pensamentos são
Mais altos que os meus
Meus olhos não enxergam nem o próximo segundo,
Mas os seus...

Rossana F. Refosco

10 de maio de 2018

O ritmo de Deus

(Gn. 8.1-22)

"...e durante cento e cinquenta dias a água foi baixando pouco a pouco" Gn 8.17

Sete dias e mais sete dias e mais sete dias...
É verdade que o livramento de Deus sobreveio milagrosamente sobre a família de Noé.
Mas sob quais condições eles ficaram?
Será que foram momentos confortáveis para aquela família, acampados por tantos dias dentro daquele barco?
Apesar de não terem sido levados pelas águas do dilúvio como todo o restante da população e apesar de terem sido escolhidos, o barco devia feder por causa dos bichos e a comida reservada provavelmente prestes a acabar.
Além da higienização do local e possível falta de alimentos, não consigo imaginar como estavam todos eles durante aqueles infindos dias.
Também não entendo quais as questões que aquelas pessoas internamente levantavam.
Será que ainda ficaremos muito tempo por aqui?
Quanto tempo vai durar nossa comida?
E se a chuva não cessar?
Será que sairemos daqui?
Talvez o mais difícil seja suportar "a demora", o ritmo de Deus. O relógio 'ticando' lentamente, como o pulsar de um ciclo cardíaco em sono profundo: sístole - diástole - sístole - diástole
Acontece que eu chorei indiscretamente quando li este texto no metrô, ontem, no trajeto de volta pra casa.
Não consegui me conter. Porque estou exatamente na arca. Cheia de lembranças do milagre, até vivendo o milagre, todavia num lugar sem conforto, sem o aconchego de um lar, sem aquela sombrinha gostosa. Carregando em mim o sonho de pisar outra vez em terra seca, de construir um lugar seguro pra ficar; me assentar debaixo de uma macieira; de viver de verdade. E esta estrada me parece longa, lenta...
Todavia, sinto que a chegada talvez não faça tanta diferença.
Xiiiiiiiii!!! mas vou contar-lhes um segredo: eu tenho pra mim que quem precisa dar cor à caminhada lerda sou eu. Preciso colorir as flores e pintar o meu sol...
Parece-me que tudo faz sentido através da maneira como eu caminho até onde quero ir; a forma como reajo à chuva; no jeito como confio nEle, no Senhor que me colocou num barco fedido para me proteger da tempestade e o quanto eu me entrego a Ele nessa lenta jornada até a conquista dessa terra firme que almejo.
O segredo não está na linha de chegada, mas em como foi o meu trajeto. Para tanto, clamo que Deus me dê a chance de desfrutar, de me entregar e confiar a Ele esse meu caminhar para que possa ter valido à pena cada segundo quando eu chegar lá e meus pés estiverem pisando em um lugar seguro.
" Às vezes o livramento de Deus não se dá em condições agradáveis, mas é certo que as águas baixarão e o sol brilhará outra vez".


A Persistência da Memória, Salvador Dalí, 1931.

Rossana F. Refosco

31 de março de 2018

O principal

Abri feliz aquele envelope branco com fita perolada porque tinha o meu nome.
Era pra mim e eu aceitei.
Era pra ser um encontro, mas furei.
Deixei que Ele me esperasse por horas, sentado à mesa do melhor lugar da cidade.
Embora parecesse não se importar com as normas de etiquetas quanto à minha vestimenta, estava lá, ultrajado divinamente.
Ele era o principal, o autor do convite.
Toda fonte de beleza e magnitude estava nEle...
Todavia aquele tempo me serviu para melhorar a minha aparência; buscar o meu melhor traje, o par de sapatos mais desejado, brincos elegantes e o perfume mais caro. Isso me tomou o tempo.
Distraída, fiquei a maquiar meu rosto vendo-me refletida naquele espelho da sala, o de moldura amadeirada...
Enquanto me olhava, esqueci-me de que Ele me esperava todo aquele tempo.
Não sabia mais para onde iria e já não me importava que Ele estivesse ali. E suas vestes? Nem pareciam tão belas assim.
Esperava agora encontrar quem merecesse o meu encontro, mas não encontrei.
Fiquei deslumbrante demais pra qualquer companhia!
Aquele encontro estava aquém do que eu esperava pra mim.
E ele, que pela última vez olhava para o relógio, calmamente se pôs a levantar... Eu já não sabia que alguém me esperava e não lembrara a razão de mais nada - das minhas vestes, do perfume, da beleza, do encontro... porque Ele já não era o principal.
Então, como que perdendo o sentido,segurei o lenço umedecido com as duas mãos e comecei a passar no rosto, retirando cada cor e tom que não eram meus, e quando toda a maquiagem havia saído, coloquei nos pés um par de chinelos velhos e roupas de casa, olhei pro envelope e me dei conta que havia perdido o encontro.
Ele ainda estava lá de pé, radiante; me esperando, como se não conhecesse meu coração...
Veio ao meu encontro e, como se nada tivesse acontecido, me amou.
E depois, como se tudo o que aconteceu, tivesse mesmo acontecido, escrevi essa canção, para Ele saber que ainda é o principal.

[Música: De nada valeu

Eu te deixei
Troquei por meus amores passageiros
Nem lembrei
Tudo o que fizestes por mim
Ignorei
O som da sua voz com meu silêncio
Esqueci
Quanto amor tu sentias por mim

E agora não consigo mais caminhar
Longe de ti a minha vida não é vida
Por todos os prazeres que te deixei
De nada valeu se não pra perceber
O que eu não sou sem ti

Tudo o que eu preciso está em ti]




Rossana F. Refosco

12 de fevereiro de 2018

Saudade

Eu bem queria
Poder simplesmente te abraçar
E esta saudade
Levar para bem longe
Pra nunca mais voltar
Eu podia me esquecer
de você

Só que agora é tarde
Pra recomeçar
Te ver
E não poder te amar
Não sabia que doía
Pensar em você

E tanto que esperei
Que o tempo te levasse
Eu não sei por que você
Se aconchegou em mim

E eu não quis saber
Quanto era arriscado
Você perto de mim
Se aconchegando em mim

Encontrou lugar
Mas não quer sair
Nem ficar


Rossana F. Refosco

5 de fevereiro de 2018

Soneto efêmero

Ao menos hoje te quero
E hei de em meu pensamento encontrar
Um olhar confuso e austero
Sem dizer onde, como e por que ficar

Que vês em mim, amigo terno
Que vens com mapa e mistério a revelar?
Que vês no teu inferno?
Desconfiança do que me faz te desejar

Bem queria que não tivesses nada
Além desse seu olhar desconcertante
Que viesses a mim apenas com'alma

Que a deixasse ver-me atentamente por um instante
Que se admirasse na minha entrega descamada
E se aconchegasse, ao menos hoje, em meu ser amante



Rossana F. Refosco

Soneto fugaz

Não me tires a tristeza saudosa
De imaginar-te, deveras, meu
E todo afinco me veio outrora
Querendo ser, meu coração, teu

Deixe-me cá, para ser distante
No pensamento me vem de lá
Trazendo a dor, sentimento errante
Fora-me prestes a acalmar

Como seria o olhar-me sorrindo
Na noite escura em meus braços tê-lo?
Seus dedos por entre os meus cabelos

E acarinhando-me adormecer
Sendo acordado pelos meus beijos
Escarmentado por não me ter...


Rossana F. Refosco

Num raio de sol

No sol, na manhã Areia do mar Me assentava esperando você Dourado o chão Toda luz em mim Entre o som das ondas A sua voz E no fechar dos o...